De uniforme cor-de-rosa, pintora de paredes aposta no ramo da construção civil e faz sucesso nas redes sociais


Bruna Ramos, de Limeira (SP), trabalha com pintura em obras e reformas há 15 anos e revoluciona o cenário, ocupado majoritariamente por homens. ‘A construção civil carece do olhar feminino’, diz pintora de paredes de Limeira (SP)
“Um dos meus sonhos é que o número de mulheres na construção civil aumente”. A afirmação é de Bruna Ramos, que trabalha como pintora de paredes há 15 anos. Bruna começou a trabalhar no ramo com o ex-marido na função de auxiliar. Mas, há quatro anos segue “carreira solo”, como ela define.
👩‍🔧 Com uniforme e ferramentas rosas, a pintora de Limeira (SP) criou a própria marca e, atualmente, presta serviço em diversas casas, apartamentos e estabelecimentos comerciais da cidade. Na atividade profissional, que garante o trabalho e renda financeira de Bruna, a pintora busca inspirar mulheres a marcarem presença no ramo da construção civil.
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📈De acordo com os dados da Receita Federal, divulgados pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP), 581 mulheres são Micro Empreendedoras Individuais (MEIs) na área da construção civil na região de Piracicaba (SP). Desse número, 141 atuam no ramo em Limeira.
Bruna realiza pinturas profissionais em portões, acabamentos e outros serviços em casas e estabelecimentos de Limeira e outras cidades da região.
Estevão Mamédio/g1
Na opinião da profissional, muitas mulheres que têm o desejo de trabalhar na área acabam desistindo por medo do preconceito praticado pelos homens em um ambiente masculinizado, como o de uma obra. 🏗️
“Ter mais mulheres na construção civil muda muita coisa. Só que, por conta do ambiente masculinizado as mulheres, têm medo de aparecer. Se elas soubessem a força que elas têm, o diferencial que elas fazem em uma obra, elas não estariam escondidas. Por isso que eu incentivo: tem que mostrar que está ali mesmo, que sabe fazer, que está aprendendo”, diz.
👁️ Olhar feminino
Para Bruna, “a área carece do olhar feminino”, porque a busca por serviços que prezam pela organização e cuidado com a limpeza e objetos do lar tem sido cada vez mais procurados. 🔎
“Eu vou trabalhar nos lugares e o pessoal fala ‘ah eu posso ficar mais tranquila, posso trabalhar tranquila, porque eu sei que você vai tomar cuidado com os meus móveis, com meu cachorro, com meus filhos e tal’ e eu vou mesmo, porque mulher tem esse lado do cuidado, eu empapelo e forro todo o chão”, contou a pintora.
Bruna luta para conquistar cada vez mais espaço no ramo da construção civil.
Daiane Martins
Janaína Assad é um exemplo das pessoas que preferem optar por uma prestação de serviços mais cuidadosa. Ela é cliente de Bruna e relatou ao g1 sua experiência com o serviço de obras feito por uma mulher.
“Eu fui viajar e a Bruna estava pintando minha casa, ela ficou preocupada que eu ia chegar de viagem e ia precisar lavar roupa e a lavanderia iria estar ocupada por conta do serviço dela. Aí, ela terminou a lavanderia antes para eu chegar e pode lavar as roupas. Que pessoa, que homem que ia pensar nisso? Eu achei um máximo”, comenta.
🔒 Segurança, privacidade e confiança
🏡Outra clientela atingida por Bruna é a de mulheres que moram sozinhas ou que passam o dia sozinhas em casa e não se sentem seguras em contratar um homem para realizar serviços de pintura ou reparos no lar.
“A maioria das casas tem sempre clientes que ficam lá no momento em que estou trabalhando e eu preservo o máximo possível a privacidade deles, prezo pela segurança. […] Isso cria confiança, né, e até amizade, tem muitos clientes que eu vi os filhos crescerem. […] O pessoal é sempre carinhoso comigo”, descreve.
A pintora argumenta que sempre procura manter uma relação profissional com seus clientes, mas sem deixar a parte humanizada de lado. Ela afirma que com isso atrai mais pessoas interessadas em contratá-la. 🖌️
“Eu amo o que eu faço. É gostoso esse lado afetivo do trabalho. Participar da história das famílias, transformar lares. Tudo tem o lado profissional, eu levo isso muito a sério, mas essa parte humanizada não tem igual”, observa.
A pintora utiliza os equipamentos de proteção individual para realizar alguns tipos de serviços.
Estevão Mamédio/g1
➡️ Preconceito
Apesar dos elogios que recebe, a pintora relatou que já passou por diversas situações de preconceito e machismo durante a carreira em função do ambiente de trabalho, predominantemente masculino, e da profissão, considerada um exercício feito exclusivamente pelos homens.
“O povo comenta ‘nossa, mulher na obra?’. Tem homem que olha feio, até hoje passo por isso. Uns aceitam super de boa, mas tem outros que ainda olham com certo preconceito. Acham que a gente é boneca de vidro, de porcelana, que não vamos conseguir fazer o trabalho”, relatou.
Bruna conta que até hoje ouve pessoas duvidando de sua capacidade em prestar o serviço em construções e reformas. A profissional já escutou que não conseguiria subir no telhado para realizar um trabalho pelo fato de ser uma mulher.
Eu tenho que sempre estar provando para as pessoas que sou eu que vou fazer o serviço, que não é terceirizado, que não vai ter homem, porque duvidam”.
👷‍♀️ “Quero ser inspiração todo dia”
Quando Bruna se separou do ex-marido pensou que precisava continuar no ramo, mesmo sozinha, com o intuito de inspirar outras mulheres a ingressarem na área da construção civil.
Ela se aprimorou e buscou se capacitar ainda mais para continuar atuando como pintora de paredes. Atualmente, ela realiza diversos serviços que englobam a pintura, como paredes, portões, acabamentos e reparos. 🔧
“Eu continuei porque eu amo isso aqui, e para inspirar outras mulheres. Para que elas se capacitem, conquistem e soltem essa leoa que tem de dentro de cada uma delas. Eu quero ser inspiração todo dia”, declarou.
Bruna também procura inspiração na família para seguir no ramo. “Meu ponto de referência são meus pais. Meu pai é aposentado, mas trabalha até hoje, ele tem 74 anos e é vidraceiro. Meu pai me inspira muito, a minha mãe também, ela foi cuidadora de idosos por anos. Eu vi meus pais ganhando dinheiro honestamente e eu quero ser sempre essa referência para o meu filho que tem 22 anos”.
A pintora também faz sucesso nas redes sociais, onde mostra a rotina de seus dias com a profissão.
Reprodução/redes sociais
🎀 Trabalho cor-de-rosa
A pintora encontrou na cor-de-rosa uma forma de criar sua identidade. Pelas redes sociais, Bruna Ramos compartilha com os seguidores o dia a dia da profissão em meio a cores e tons de rosa do macacão, do batom e das ferramentas. 🎨
A profissional explicou que tudo começou quando ainda trabalhava com o ex-marido. Os dois começaram a pintar os utensílios de trabalho com a cor rosa com o objetivo de diferenciar as ferramentas deles de outras pessoas que trabalhavam na mesma obra.
“Eu falei ‘vou vestir rosa’, aí ganhei um macacão rosa de um grupo de pintoras. Eu pensei ‘a área já é muito masculinizada, vamos por uma rosa aqui nesse canteiro todo’, aí mandei fazer outras roupas, também no tom rosa, até minha caixa de ferramenta é rosa” afirmou.
*Sob supervisão de Claudia Assencio
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